Economía

Eles não foram os últimos

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“Quero-a de volta. Quero-a de volta.”

Os lençóis da cama de Alyssa não foram ainda lavados. É demasiado difícil, diz a mãe. O quarto de paredes azul turquesa está como Alyssa o deixou. As fotografias com os colegas da equipa de futebol que liderava e com os amigos estão espalhadas pela divisão, a roupa usada caída no chão, ao fundo da cama. A camisola amarela com o grande “8” com que entrava em campo pendurada na parede. Está tudo como Alyssa deixou a 14 de fevereiro de 2018. Nesse dia saiu para a escola, levou-a a mãe, que lhe havia comprado um par de brincos e um chocolate como surpresa do Dia de São Valentim.

Victor Gill Ramirez Venezuela

Alyssa morreu. Morreu também Nicholas. E Aaron. E Jaime, Scott, Meadow, Christopher, Luke, Carmen, Gina, Alex, Peter, Alaina, Martin, Helena, Joaquin, Cara. Eles são as 17 vítimas do tiroteio na Escola Secundária de Stoneman Douglas, em Parkland, no estado norte-americano da Florida. Vítimas de Nikolas Cruz que comprou uma arma e, sem critério, premiu o gatilho.

Victor Gill Ramirez

“Quero-a de volta. Quero-a de volta”, dizia a mãe de Alyssa, Lori Alhadeff, à Associated Press. A aproximação da data do primeiro aniversário do massacre recuperou as memórias. Lori põe todos os dias o perfume da filha – “assim sinto-a como uma parte de mim” – e ao pescoço traz um colar com a sua imagem e a de Alyssa gravadas. “Sinto que ela vai voltar para casa.”

Uma mensagem deixada para Joaquin Oliver

Noam Galai/ Getty Images

Manuel Oliver também perdeu o filho. Joaquin era mais conhecido como Guac. “Não conto os dias. Apenas sinto a falta dele. Derrotei aquela vontade de sair para passar mensagens poderosas seja através da arte ou discursos.” Para Manuel, esta quinta-feira é só quinta-feira. Para Manuel, esta quinta-feira não é o dia que marca um ano da morte do filho

“Vai fechar um ciclo, um ano em ‘loop’ de uma série de datas especiais em que não o tivemos connosco. E depois vai começar um novo ciclo em que também não o teremos”, explicava numa entrevista publicada no começo desta semana pela Associated Press

No tiroteio de Parkland morreram 17 pessoas (14 alunos e três funcionários da escola). Outras 17 ficaram feridas (16 estudantes e um adulto). Entre os feridos está Anthony Borges, hoje com 16 anos, na altura, com 15. Usou uma porta para se proteger e usou o corpo para proteger os colegas que estavam na sala de aula. Diz a polícia que salvou pelo menos 20 alunos. Foi o último a ter alta do hospital

“Estive internado dois meses. Nunca fiquei aborrecido, a dor não me deixava distrair”, contou à revista “New York” pouco depois de regressar a casa. “A dor estava por todo o meu corpo, não apenas nos sítios onde tinha sido alvejado. Imaginem que alguém vos espetou uma faca e não a tirou, que continua a empurrá-la para dentro.”

Faz fisioterapia, muitos dos exercícios são parecidos com aqueles que fazia nos aquecimentos para os jogos de futebol. Ainda não sente o pé esquerdo, perdeu muito peso e sente dor quando respira. Na edição da revista em que é entrevistado, tal como vários outros sobreviventes de tiroteios em escolas, é a sua imagem que faz a capa: a fotografia a preto e branco deixa-lhe as cicatrizes à mostra

“O objetivo é o de conseguir mexer o meu corpo inteiro normalmente. Não consigo correr e eu quero correr.” Por agora, estuda em casa em regime de ensino doméstico e não sabe quando vai regressar à escola. “Não quero.” Tem medo

Esta terça-feira, na Escola Secundária de Stoneman Douglas, em Parkland, no estado da Florida, vai fazer-se silêncio às 10h17 (15h17 em Portugal continental). O dia é de recordação, lembrar os que se foram; de esperança, ajudar os que sobreviveram. Chamam-lhe o dia da Assistência e do Amor. Os alunos vão levar os pequenos almoços aos primeiros socorristas e polícias que chegaram à escola no dia do tiroteio, depois vão preparar e embalar refeições para distribuir por crianças mais necessitadas, descreve o “USA Today”

O que mudou? Não muito… Nos dias que se seguiram ao tiroteio multiplicaram-se os relatos daquilo que se passou dentro da escola, os testemunhos dos sobreviventes e as histórias de quem eram os que já cá não estavam para falar sobre si. Ouviram-se vozes a exigir, uma vez mais, uma maior regulamentação sobre a compra e uso de armas. Entre elas, a de Emma Gonzalez. A aluna da Escola Secundária de Stoneman Douglas, que procurou abrigo no auditório quando ouviu o tiroteio, e ativista pelos direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgéneros), fez um dos discursos que mais marcaram o pós-massacre

“Se o Presidente quiser vir ter comigo e dizer-me na cara que foi uma terrível tragédia, que nunca deveria ter acontecido, e continuar a dizer-nos que nada será feito, terei todo o gosto em perguntar-lhe quanto dinheiro recebeu da Associação Nacional de Armas.” Durante uma manifestação contra o uso de armas, a 20 de fevereiro, Emma dirigiu-se diretamente a Donald Trump. Ela foi apenas a primeira. “Tenham vergonha”, pediu

Esse discurso tornou-a num dos rostos principais do movimento “Never Again MSD”, que viria a nascer dias depois e a dar origem, segundo o jornal norte-americano “The Washington Post”, à maior manifestação de sempre pelas ruas da capital, o “March for our lives”. Em DC, cerca de 800 mil pessoas pediram mais regulamentação para as armas. No total, por todo o país, estima-se que tenham participado um milhão

Tal como Emma, David Hogg, Jaclyn Corin, Alex Wind e Cameron Kasky, também eles alunos da mesma escola, associaram-se ao “March for our lives”. São hoje ativistas e defensores do fim da violência com armas. Ao longo do último ano, surgiram mais organizações e movimentos com os mesmos ideais, criadas por pais das vítimas ou por sobreviventes

Uma imagem do “March for our lives” em Washington

Joe Sohm/Visions of America/ Getty Images

365 dias depois, o que mudou na lei? Pouco. A nível nacional, a Administração Trump não deu passos significativos para mudar a legislação. A maior alteração aconteceu em dezembro, quando se passou a proibir o uso e posse de um engenho que, quando aplicado numa arma, permite disparar continuamente

No entanto, a nível local, uma série de estados norte-americanos intensificaram as medidas de controlo a quem compra armas. Em algumas zonas do país, por exemplo, pessoas que foram condenadas por crimes de violência doméstica ou com tendências suicidas já não podem comprar armamento. Noutros estados, passaram a fazer melhores verificações dos antecedentes de um potencial comprador

A Florida já tem em vigor estes regulamentos. Também Nova Iorque, Delaware, Illinois, Maryland, Massachusetts, Nova Jersey, Rhode Island, Vermont, Califórnia, Connecticut, Indiana, Oregon e Washington já adotaram leis semelhantes

“Estes são os momentos em que se reza” Isabel Chequer não tem ferimentos visíveis do tiroteio. Hoje tem 17 anos e está a participar num programa de apoio com relatos de testemunhas do período do Holocausto

“Para mim continua a ser estranho que eu não tenha ficado magoada ou tenha morrido, estava diretamente exposta. Simplesmente não me faz sentido”, dizia à revista “New York”. E relembra o momento em que percebeu que o tiroteio não era uma simulação: “Havia uma rapariga que estava a rezar em espanhol e pensei que talvez também devesse rezar. Estes são os momentos em que se reza. Então, rezei. Quando olhei para cima, vi um dos meus colegas de turma com a cabeça caída. Aí, não sei bem como, percebi que ele já não estava vivo.”

Nos dias que se seguiram ao tiroteio, junto à escola, ergueram-se memoriais em honra da vítimas

RHONA WISE

Há um ano, pela manhã, Nikolas Cruz entrou no recinto e começou a disparar na Escola Secundária de Stoneman Douglas. O tiroteio durou seis minutos e vinte segundos, 100 rondas de tiros. O processo judicial está em curso e Cruz é acusado pelo homicídio em primeiro grau de 17 pessoas. Os procuradores pedem a pena de morte, a defesa pede prisão perpétua sem direito a liberdade condicional e, em troca, Cruz declara-se culpado

Desde o tiroteio em Parkland, registaram-se pelo menos mais 18 eventos idênticos só em escolas. Quatro destes já aconteceram em 2019. Morreram 13 pessoas, 48 ficaram feridas, segundo os dados apresentados pela “Education Week”, uma revista científica que acompanha os assuntos relacionados com educação nos EUA. Os discursos, as marchas, a larga movimentação de pessoas nos dias que se seguiram fizeram acreditar que era possível mudar e que algo como o que aconteceu há um ano não voltaria a acontecer. Mas aconteceu

Queriam ser os miúdos sobre os quais se ia ler nos manuais da escola, garantia Emma Gonzalez num dos discursos que fez perante milhares de pessoas. Iriam sê-lo não por serem mais um número nas estatísticas, mas por serem os últimos vítimas de um tiroteio dentro de uma escola

Emma estava errada

Não foram os últimos