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Efeitos do ‘rating’: Costa e Catarina destoam, Rio e Marcelo desafinam (e Centeno rejubila)

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Efeitos do 'rating': Costa e Catarina destoam, Rio e Marcelo desafinam (e Centeno rejubila)

Não há como o período pré-eleitoral para os governos cavalgarem as boas notícias, nem para as oposições as desvalorizarem. A informação sobre a nova subida do ‘rating’ de Portugal pela Standard & Poors (S&P) serviu para Mário Centeno puxar dos galões, para António Costa ambicionar mais resultados na economia, para Marcelo Rebelo de Sousa se mostrar satisfeito, para Catarina Martins exigir mais (salários, pensões e habitações), e para Rui Rio criticar o Governo porque isto só não chega e o que é mesmo preciso é superávit nas contas públicas (Assunção Cristas e Jerónimo de Sousa ainda não disseram nada).

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Enquanto António Costa procura consolidar o discurso do sucesso da ‘geringonça’ com a ambição de continuar a crescer acima da média europeia, subinha o alegado fim da austeridade, ao citar elogios do FMI, da Comissão Europeia e até de “alguma direita” – estaria a falar do Presidente da República? Estas notícias favoráveis vindas das agências de rating, ajudam a estratégia do secretário-geral do PS: dão força à aposta na recuperação do eleitorado de centro e até de centro-direita (que pode preferir os socialistas sozinhos do que com a influência do BE e do PCP); e afasta ao mesmo tempo o “fantasma do socratismo”, de que o próprio Costa falou recentemente num debate quinzenal. Ou seja, atenua os receios de o PS poder conduzir o país à bancarrota (uma perceção que o primeiro-ministro acha que o prejudicou nas eleições de 2015).

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Mário Centeno é uma peça fundamental nesta estratégia. O ministro das Finanças correu a dar uma entrevista à Lusa (ver texto mais abaixo) para marcar o momento com um discurso de enorme otimismo em relação ao futuro. Tudo isto acontece apenas seis meses depois de a Moodys, a terceira e última das três grandes agências de rating também ter retirado Portugal da chamada categoria de “lixo” (foi em outubro de 2018). A S&P, recorde-se, já tinha colocado o país em nível de investimento em setembro de 2017

Se a confiança dos mercados é fundamental e tem efeitos práticos na vida do cidadão comum – como se viu desde 2011 – o Governo agora precisa de contaminar os eleitores com essa segurança. O défice está controlado, historicamente baixo, a economia vai crescendo, apesar do abrandamento e dos riscos no horizonte, mas os indicadores de confiança dos consumidores (na economia para os próximos 12 meses) estão no patamar mais baixo desde 2016, segundo o INE. E a confiança no Governo também está em quebra segundo um índice medido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos

Pelo contrário, a sondagem do ICS/ISCTE para a SIC e para o Expresso – divulgada há uma semana -, dá os portugueses relativamente otimistas: 37% acham que com este Governo a economia melhorou ou melhorou muito, 40% pensam que ficou na mesma e 21% respondem que piorou ou piorou muito. É neste quadro que António Costa terá de trabalhar, para fazer face à quebra nas sondagens (tem 37% neste estudo, e está mais longe de uma maioria absoluta que já considerou “virtualmente impossível”). Nas próximas semanas, será conhecido um esboço daquilo que o primeiro-ministro estará a preparar com o ministro das Finanças

Em abril, o Governo apresentará no Parlamento o Programa de Estabilidade para enviar a Bruxelas, e daí poderá perceber-se não só o quadro que vai servir de base ao Programa Eleitoral do PS mas também quais serão as grandes linhas para a atuação na próxima legislatura – caso o os socialistas ganhem as eleições legislativas

Embora Marcelo Rebelo de Sousa tenha mostrado satisfação com a apreciação da S&P – o Presidente disse que o precurso foi “rápido e bom” – Rui Rio considerou os resultados que o Governo apresenta insuficientes. Para o líder do PSD, Portugal “tem de melhorar o rácio entre dívida e PIB”, ou seja, “só conseguirá baixar a dívida pública quando as contas não forem deficitárias”. Defendeu, por isso, políticas contracíclicas com a existência de superavit em anos de crescimento – o contrário de défice – para se ganhar músculo para o investimento nos anos de recessão. “Se o Governo seguir estas regras, será difícil às agências de rating não darem uma boa nota a Portugal“, afirmou este sábado

Se Rio e Marcelo desafinam, Costa e Catarina não encaixam, mas Centeno e o líder do PSD não parecem assim tão distantes

António Costa: grandes esperanças O “diabo” não vem aí e a prova disso, mais uma, foi a subida de Portugal no rating da Standard & Poor’s de BBB- para BBC, o que na prática significa que o país está agora dois níveis acima da linha vermelha de ‘lixo financeiro’. Assim o disse o primeiro-ministro, António Costa, este sábado, enquanto falava aos militantes socialistas reunidos em almoço organizado em Matosinhos (Pedro Marques, cabeça de lista dos socialistas às eleições europeias também esteve presente) e até disse mais. A ambição, agora, é a de ter Portugal a crescer acima da União Europeia durante “pelo menos uma década” e para isso será seguido o mesmo caminho e a “grande prioridade da política económica” continuará a ser o emprego. “O PS disse que era possível estar na Europa e romper com a austeridade, mas houve quem achasse que não, que o diabo vinha aí.” Não veio, e a prova disso é ter Portugal hoje em dia a ser considerado, “tanto pelo FMI, como pelas agências de rating e Comissão Europeia, como um grande exemplo de sucesso”

Centeno: “Redução da dívida” tem de continuar a ser prioridade O mesmo tom otimista foi usado por Mário Centeno, ministro das Finanças, para quem a avaliação da agência norte-americana reflete “o reconhecimento de transformações estruturais na economia” e contribuirá para reforçar a “confiança” dos investidores e a “credibilidade” de Portugal lá fora — também terá, garantiu Centeno, “um impacto direto” nos custos de financiamento das famílias, empresas e Estado

À Lusa, o ministro das Finanças português disse que o Estado poupou 1,270 milhões de euros em 18 meses com as subidas de rating, poupanças essas que se devem às “políticas económicas” que têm sido seguidas. E sublinhou que o foco deve continuar a estar sobre a “redução da dívida, que continua elevada”. Segundo Centeno, as perspetivas de receita também são positivas, com um aumento de 7% das contribuições para a Segurança Social acima do projetado e de 10% nas receitas do IVA

Rui Rio: Portugal “vai ter de sofrer mais do que era necessário” Já Rui Rio negou qualquer conquista ou celebração e culpou o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista por isso. O Governo, afirmou o líder dos sociais-democratas este sábado, durante um fórum distrital autárquico do Porto, não teve uma “política sustentada de crescimento económico” — nem podia ter, visto ter sido “sustentado pelo BE e pelo PCP“, que não são “amigos das empresas e do investimento, afirmou

Portugal a crescer acima da União Europeia como Costa disse ambicionar? “Isso queremos todos”, mas para isso seria necessário haver políticas para “facilitar o investimento privado e as exportações” e estas, segundo Rio, não existem. Segundo o líder do PSD, Portugal deveria “ter aproveitado o momento alto do ciclo económico”, que se deu nos últimos “três ou quatro anos”, para “preparar o futuro com uma estratégia de crescimento económico sustentado”, mas Portugal não aproveitou e vai “ter de sofrer mais do que era necessário”

Catarina Martins: uma “pequenina recuperação” mas tanto para fazer Catarina Martins não antecipou qualquer cenário catastrófico, mas sublinhou que ainda há trabalho a fazer e, para isso, será necessário mais investimento público e melhores salários e pensões. “Façamos o que falta fazer, porque neste país ainda se vive muito mal, os salários não chegam até ao fim do mês e as pensões são curtas demais”, afirmou a coordenadora dos bloquistas durante uma visita ao bairro da Quinta da Lage, na Amadora, voltando a chamar a atenção para a importância de investir na habitação

Ainda assim, há melhorias a louvar, “uma pequenina recuperação”, uma assunção do “erro” por parte das instituições internacionais, isso deve-se, acima de qualquer outra coisa, à “determinação e firmeza” mantidas ao longo dos últimos anos. “Quando começou esta legislatura e defendemos que era possível recuperar salários e pensões e ter políticas públicas que defendessem as pessoas, diziam-nos que isso ia ser o desastre, que vinha a calamidade económica, que as instituições internacionais estavam em pânico e iam atacar o país”, recordou

Marcelo Rebelo de Sousa: “Percurso rápido e bom” Só Marcelo Rebelo de Sousa não teve nada a apontar. Durante uma visita a Oliveira do HospitalFesta do Queijo da Serra da Estrela), o Presidente da República congratulou-se pelo “percurso rápido e bom” que Portugal tem feito e afirmou que esta subida no rating da agência norte-americana significa que “evolução de Portugal” está a ser reconhecida lá fora, nos mercados financeiros. Também significa, se a análise se quiser mais comparativa, “que os juros da dívida portuguesa estão a aproximar-se dos juros da dívida espanhola e a distanciar-se de Itália”